A OPINIÃO PUBLICADA E O CASO RENAN

Tiberio Alloggio

Renan Calheiros saiu vitorioso do braço de ferro que travava (há quatro meses) com a mídia monopolista. Enquanto a “opinião publica” em Alagoas festejava sua absolvição com rojões e foguetes, a “opinião publicada”, ainda atordoada pela derrota, procurava entender o que houve, onde errou, e quem a traiu. Pessoalmente confesso que eu também me senti derrotado, mas isso não me impediu de vibrar muito ao constatar a derrota da mídia monopolista.

Renan foi “flagrado” contrariando suas expectativas (e da maioria dos políticos) de que jamais poderia ser pego. Ou se (por acaso) for apanhado, poderia se livrar facilmente, pois é assim que raciocina um político de poder. Seu caso, normalmente, teria tido outro desfecho, igual aos tantos escândalos sexuais que não passam de mais um capítulo de novela. Mas, Renan, por sua posição, tornou-se um prato cheio para a mídia partidarizada, e acabou sendo “vítima” de um cumulo de ocorrências políticas improváveis, portanto aquilo que era uma probabilidade em milhões aconteceu.

O Senador Alagoano ao longo de sua bem sucedida trajetória política, ocupou posições importantes: líder de governo, ministro de estado e presidente do Senado nos governos Collor, FHC, Lula. Nesse meio tempo, como a maioria dos políticos enriqueceu. Contas elementares podem demonstrar a impossibilidade de acumular patrimônios, só com rendimentos dos cargos públicos. Para tanto o Senador deve ter contado (como a maioria dos políticos) do apoio de terceiros, e não somente de uma empreiteira.

Com esses apoios Renan conseguiu as “sobras” que (como a maioria dos políticos) investiu na criação de bois para justificar seu enriquecimento. Também (como a maioria dos políticos) se serviu de um “operador”, para operar transações “não contabilizadas”, incluindo nelas as despesas extraconjugais. Renan (como a maioria dos políticos) certamente recebeu recursos não contabilizados, até as pedras sabem disso, mas ninguém tem provas.

Ao contrário do que podemos pensar Cláudio Gontijo não é o delegado da Empreiteira que paga as contas de Renan. Muito pelo contrario, o “apoio” da Empreiteira se dá na remuneração de Gontijo, para ele poder atuar como operador de Renan junto aos demais financiadores. Porem nunca junto à própria empreiteira, pois lá ninguém é tão burro.

Dificilmente alguém poderá provar que a Mendes Jr. repassava dinheiro a Cláudio Gontijo para pagar despesas de Renan. Só se alguns deles cometeram erros elementares, mas essa é também uma eventualidade que representa uma probabilidade em um milhão. Por essa razão Renan sentiu-se absolutamente tranqüilo quando o acusaram de ter suas contas pagas pela Mendes Jr. através de Cláudio Gontijo, pois isso realmente não teria ocorrido.

A mídia que viu no caso Renan a oportunidade de atingir Lula e seu governo, radicalizou. Porém ao perseguir o Senador por um ato que não ocorreu, acabou ajudando-o sem querer. Renan tinha todas as cartas para enrolar o Senado, e por essa razão, ele mesmo encaminhou (sabendo que o encaminhamento era irregular). a representação do PSOL para a Comissão de Ética, vencendo a desconfiança de que queria impedir a apuração.

Renan chegou à Presidência pela sua capacidade de articulação e conciliação e sabia que a oposição a ele no Senado é parte da mesma corporação. Assim como sabia que a oposição nunca teria radicalizado, pois para ela significaria apenas fortalecer um ou outro candidato da base aliada. Para a oposição seria ruim com Renan, mas pior sem ele. Por isso Renan acabou absolvido pelos senadores com os votos determinantes da oposição. Não foi só a vitória do Renan, também a corporação dos senadores venceu.

Portanto, os principais problemas do Renan não estavam no Senado. A pedra no sapato de Renan foi a radicalização da mídia partidarizada. Poderíamos ate especular em torno do que, mas eles sabem bem melhor que nós.

A Mídia, cujo objetivo é derrubar Lula, funciona como um negócio e ao mesmo tempo como um partido. Ela precisa vender jornais e/ou audiência para conseguir anunciar, e o que lhe garante audiência hoje, é uma porção de classe media e da oposição política que a ajudam a pressionar o Governo para garantir anúncios e extorquir privilégios.

Essa mídia constitui a “opinião publicada”, aquela que se autodenomina “formadora de opinião”. Na realidade trata-se de poucas empresas monopolizadas que operam como “editores da opinião” de um segmento da sociedade. O seu público nunca foi o povo (embora sempre procure tentar passar essa impressão), mas uma parte da classe media supostamente mais educada e mais esclarecida, que lê ou assiste a tudo que ela pauta. Enfim, uma minoria se comparada ao conjunto dos eleitores.

A “opinião publicada” é aquela mesma que brande a bandeira da “ética” em único sentido, ou seja, denuncia os 45 milhões do Valerioduto Petista, mas esconde os 100 milhões do Valerioduto Tucano. Que denunciou os Aloprados do PT para esconder os “Sanguessugas” e seus mentores tucanos. É a mesma que pediu a cabeça de Renan Calheiros não porque merecesse, mas só para atingir a base do Governo Lula, sem dar a mínima para o que fizeram os outros da Operação Xeque-Mate, Navalha, etc.

A opinião publicada vive indignada com o Governo Lula e sua base de apoio, e toda vez que alguém próximo do governo deslizar, sai para a porrada.

A “opinião publicada” tornou-se o maior partido de oposição ao PT e ao Governo Lula, mas ainda não se tocou que a “opinião pública” é e continua a seu favor.

  1. Anonymous’s avatar

    Goebbels inspira direita e esquerda na internet

    Celso Lungaretti *

    A internet fornece tribuna a todos os cidadãos, que podem espalhar à vontade suas opiniões, interpretações e informações (verdadeiras e falsas), seja assumindo honestamente a autoria, seja ocultando-se como anônimos ou fakes.

    Num primeiro momento, houve quem saudasse essa nova realidade como uma quebra do monopólio da imprensa e um respiradouro para a opinião pública tomar conhecimento de verdades que estariam sendo sonegadas pelos barões da mídia.

    Agora, entretanto, evidencia-se cada vez mais o outro lado da moeda: abriram-se possibilidades praticamente infinitas de manipulação das consciências. Não só para impingirem-se como verídicos os eventos mostrados no pega-trouxas cinematográfico A bruxa de Blair, como também para a massificação de propaganda política enganosa, na linha do nazista Joseph Goebbels (“Uma mentira mil vezes repetida se torna uma verdade”).

    As empresas jornalísticas e seus profissionais são obrigados a respeitar limites, para não sofrerem os prejuízos financeiros decorrentes da perda de credibilidade e das ações judiciais. Não podem dar livre curso a fantasias e calúnias.

    Já os sites financiados por facções políticas pouco têm a perder, daí a desenvoltura com que agem. Direcionam-se para cidadãos frustrados e rancorosos, propensos ao fanatismo e, portanto, incapazes de perceber a total falta de verossimilhança naqueles relatos mirabolantes. Trata-se do mesmo caldo de cultura que gerou o nazismo e o fascismo.

    A extrema-direita, em sites como o Ternuma, Mídia sem máscara, Usina de letras e A verdade sufocada, prega ostensivamente um novo golpe militar, tentando reeditar, de forma mecânica, a receita que deu certo em 1964.

    Mas, se os sem-terra caem bem no papel de espantalho então preenchido pelas Ligas Camponesas de Francisco Julião e se Lula é tão useiro e vezeiro em dar trunfos para o inimigo quanto Goulart, outras peças do quebra-cabeças não se encaixaram: os controladores de vôo nem de longe indignaram a oficialidade como os subalternos das Forças Armadas (com destaque para os marujos liderados pelo cabo Anselmo), o Cansei e o Fora Lula só conseguem reunir gatos pingados, jamais as multidões das Marchas da família, com Deus, pela liberdade.

    O mais risível é o papel de vilão principal, antes ocupado pela conspiração comunista urdida em Moscou e Pequim. Na falta de coisa melhor, os sites fascistas hoje alardeiam a periculosidade do Foro de São Paulo, por eles apresentados como a “organização revolucionária que está influenciando de maneira decisiva os destinos políticos da América Latina, em especial a América do Sul”.

    Na verdade, trata-se apenas de um encontro bianual de partidos políticos e organizações sociais contrárias às políticas neoliberais, que vem acontecendo desde a reunião inicial de 1990, em São Paulo (daí o nome).

    Olavo de Carvalho, misto de (péssimo) jornalista, (eficiente) propagandista e (pretenso) filósofo, descreve o Foro de São Paulo de forma tão delirante que parece Ian Fleming introduzindo a Spectre numa novela de James Bond: “…a entidade que já domina os governos de nove países não admite, não suporta, não tolera que parcela alguma de poder, por mais mínima que seja, esteja fora de suas mãos. Nem mesmo as empresas de comunicação e o Judiciário, sem cuja liberdade a democracia não sobrevive um só minuto. Com a maior naturalidade, como se fosse uma herança divina inerente à sua essência, o Foro de São Paulo, com a aprovação risonha do nosso partido governante, reivindica o poder ditatorial sobre todo o continente”.

    As hostes virtuais petistas respondem com outros sambas do crioulo doido, como os dossiês sobre conspirações para derrubar o presidente Lula divulgados pelo fantasmagórico grupo Jornalistas Independentes do Brasil (Jibra), com sede oficial em Londres (!).

    Assim, segundo o Jibra, as denúncias do mar de lama que marcou o primeiro mandato do presidente Lula não se deveram ao desmascaramento da organização criminosa que ora responde por seus crimes na Justiça, mas sim à má-fé dos formadores de opinião, que estariam sendo corrompidos para denegrir o angelical Zé Dirceu. Teria ocorrido o repasse de numerário, via Nossa Caixa, Bank of Boston e Santander Banespa, para “pelo menos 76 pessoas, entre jornalistas e outras personalidades”, incluindo os jornalistas Ricardo Noblat, Lílian Witte Fibe e Augusto Nunes, o deputado Fernando Gabeira e o ator Lima Duarte.

    Além dos partidos rivais do PT, estariam envolvidos na fantástica tramóia os serviços de inteligência dos EUA e do Reino Unido – os quais teriam assassinado o brasileiro Jean Charles de Menezes no metrô londrino, não por o terem confundido com um terrorista, mas por acreditarem que ele fosse o “operador estratégico das ações do Jibra”!

    O Ministério Público Federal e as autoridades policiais têm mostrado empenho no combate à pornografia e à pedofilia na internet, mas quase nada vêm fazendo contra as campanhas totalitárias – desde o golpismo da extrema-direita até a desmoralização e intimidação da imprensa por parte dos petistas. Muito menos para defender a honra dos cidadãos que são alvos diários de difamações e calúnias.

    É preciso disciplinar o admirável mundo novo da Web, antes que ele se torne 1984.

    *Celso Lungaretti, 56 anos, é jornalista em São Paulo, com longa atuação em redações e na área de comunicação corporativa, e escritor. Escreveu Náufrago da utopia (Geração Editorial, 2005). Artigo para o ‘Congresso em Foco’.

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